Pio XI Sobre o Ecumenismo – Análise de Romano Amerio.

O presente texto trata-se de uma análise sobre um escrito de Romano Amerio sobre o Ecumenismo, disponibilizado no site Fratresinunum,  numa publicação de 2011 feita por Mateo Beludi. O objetivo da presente publicação neste site, é trazer-vos ao conhecimento de alguns dos termos da encíclica Mortalium Animos (Pio XI – 1922-1939), nas palavras de Romano Amério.

foto_amerio_chiaraRomano Amerio era um italiano-suíço que obteve o grau em doutorado em filosofia pela Universidade Católica de Milão em 1927. Ele era um discípulo do Padre Gemelli, o fundador da Universidade.

Romano Amerio foi o levado para Concílio Vaticano como perito de Angelo Giuseppe Jelmini, Administrador Apostólico da Diocese de Lugano e Bispo titular de Thermae basílicas. O fato de Jelmini ser na época um membro da Comissão Central preparatória, Amerio foi capaz de ver todos os esquemas e escrever comentários em nome de Jelmini.

20 anos após o fim do Conselho, como ele tinha crescido mais e mais em críticas da descontinuidade na doutrina e na disciplina promovida em nome do Concílio por certos grupos, escreveu o Iota Unum. Segue abaixo a sua análise.

“Pio XI tratara já do ecumenismo em uma encíclica datada de 6 de janeiro de 1928, a Mortalium Animos. De começo destacando a ânsia universal de paz e fraternidade, Pio XI afirmou que, como “rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual”. “Por isto” — prosseguia o Papa — “costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre freqüência de ouvintes, e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão”.

Que sentencia Pio XI sobre esse gênero de reunião? É o que segue:

“[…] estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo. Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada” (n. 3).

Depois de refutar os pancristãos — em cujas palavras “se oculta um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da fé” (n. 5) –, Pio XI afirmou, sucessivamente, que:

– “só uma religião pode ser verdadeira: a instituída por Deus” (n. 7)

– “a única religião revelada é a católica” (n. 8)

– estão em erro os que buscam uma unidade pactuada em que se trata de “colocar de lado e afastar as controvérsias e a antiqüíssima variedade de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão”, chegando, ainda, a  atribuir “ao Pontífice Romano um primado de honra ou uma certa jurisdição e poder que, entretanto, julgam procedente não do direito divino, mas de certo consenso dos fiéis” (n. 9); quanto a esse tipo de  pacto, “é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo” (n. 10)

– “a verdade revelada não admite transações” (n. 11), e “a Igreja Católica é a depositária infalível da verdade” (n. 12)

– “sem Fé não há verdadeira caridade” (n. 13): “como a caridade se apóia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal”

– é uma “união irracional” a que se vê numa “federação cristã” que, em matéria de Fé, permite que cada partícipe preserve “sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros” (n. 14)

– a unidade da Igreja só pode resultar “de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só Fé entre os cristãos” (n. 15)

– é inadmissível uma divisão entre “capítulos fundamentais e capítulos não-fundamentais da Fé, como se uns devessem ser recebidos por todos, e, com relação aos outros, pudesse ser permitido o assentimento livre dos fiéis: a virtude sobrenatural da Fé possui como causa formal a autoridade de Deus revelante e não pode sofrer nenhuma distinção como esta” (n. 15)

– por isso, “é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela” (n. 16).

Romano Amerio sintetizou adequadamente, em Iota Unum, a doutrina tradicional católica sobre o verdadeiro ecumenismo, observando que ela se acha estabelecida na Instructio de motione oecumenica promulgada pelo então Santo Ofício, no dia 20 de dezembro de 1949[1], que repisou o ensinamento de Pio XI na encíclica Mortalium Animos.

Os Quatro Pilares da Doutrina Católica Tradicional

Quatro pilares, resume Romano Amerio, estadeiam a doutrina católica tradicional sobre a questão do ecumenismo:

Primeiro: “a Igreja Católica possui a plenitude de Cristo” e não tem que aperfeiçoá-la por obra de outras religiões;

Segundo: não se deve buscar a união das religiões por meio de uma progressiva assimilação das diversas confissões de Fé, nem mediante uma acomodação do dogma católico a outro dogma;

Terceiro: a única verdadeira unidade das Igrejas só pode dar-se pelo retorno (per reditum) dos irmãos separados à verdadeira Igreja de Deus;

Quarto: os irmãos separados que retornam à Igreja Católica não perdem nada de substancial de quanto pertence a sua particular profissão religiosa, senão que, antes, o reencontram idêntico numa dimensão completa e perfeita (completum atque absolutum).

A doutrina reavivada pela Instructio de motione oecumenica ampara-se em que — diz Romano Amerio — “a Igreja de Roma é o fundamento e o centro da unidade cristã”. Prossegue o autor a referir as bases dessa doutrina: “que a vida histórica da Igreja, que é a pessoa coletiva de Cristo, não se leva a cabo em torno de vários centros, as diversas confissões cristãs, que teriam um centro mais profundo situado fora de cada uma delas; e finalmente, que os separados devem mover-se para o centro imóvel que é a Igreja do serviço de Pedro”.  Assim, observa Romano Amerio: “A união ecumênica encontra sua razão e seu fim em algo que já está na história, que não é algo futuro e que os separados devem recuperar” [2].

O decreto Unitatis Redintegratio do Vaticano II rompeu com essa doutrina, de tal modo que “as confissões cristãs (incluída a católica)” — diz Romano Amerio — “não devem voltar-se uma a outra, senão que todas juntas gravitar para o Cristo total situado fora delas e para o qual devem convergir” [3]. Ao que se vê, aquilo que, em rigor, propiciou o Vaticano II — por alguns de seus documentos um contra-Syllabus — não foi, contudo, essencialmente, um novo espírito ou uma nova teologia, senão que a intensificação [4] de um velho espírito e de uma velha teologia — os do modernismo — já diagnosticados e combatidos, entre outros pronunciamentos pontifícios, pelo Syllabus de Pio IX, pela encíclica Pascendi de S. Pio X, pela Mortalium Animos de Pio XI e pela Humani generis de Pio XII.

Romano Amerio observou que “a variação na doutrina [sobre o ecumenismo] consiste em que a união de todas as Igrejas se faz, mais que na Igreja Católica, na Igreja de Cristo, por meio de um movimento de todas as confissões para um centro ubiquado fora de todas elas”. Como se chegou a sustentar, o catolicismo nada teria de específico a aportar à reunião das religiões, mas a ele somente caberia concorrer “para aprofundar os valores imanentes a todas as experiências religiosas”. Daí a conclusão inevitável: “para um maometano, converter-se significa ser cada vez mais maometano; para um judeu, ser mais judeu; para um budista, ser mais budista” [5]. Eis a meta de uma super-religião de liberdades, talvez — se bem se compreende a citação — por “la via sulla quale ogni religione è chiamata ad avanzare” (Dom Camillo Ruini) [“o caminho pelo qual toda religião é chamada a trilhar”]. Tem-se aí um ecumenismo naturalista para os não-cristãos [6]: o princípio da salvação — disse Romano Amerio — estaria já imanentizado à natureza humana (funditus), como forma de justificação de uma universidade salvífica de fato [7].

Nao há nenhuma outra religião verdadeira, Meus amados filhos, somente a Única, Santa, Católica e Apostólica Igreja. Nela vós deveis acreditar e não ter nenhum outros deuses ao vosso lado!” (26 Maio 2013 – O Pai Celestial fala).

“A Santa Eucaristia não existe mais, Meus amados, pois o Santíssimo não é mais adorado no tabernáculo. Não mais se manteve a adoração ao Santíssimo Sacramento, pois isto tem somente um símbolo de força. Igualou-se a fé católica com outras religiões e, desta maneira, ela desapareceu. Isto nomeia-se hoje de globalismo. Hoje, não se conhece mais as diferenças, pois não se professa mais pela verdadeira fé católica.” (1 Novembro 2016 – O Pai Celestial fala)

Referências do texto acima:
[1] Cfr. AAS, 31-1-1950.
[2] Romano Amerio, op. cit., § 245.
[3] Id., § 246.
[4] Nas cercanias desse entendimento, Jacques Maritain observou que o modernismo, dos tempos de S. Pio X, comparado com a febre neo-modernista posterior, não passava de “modesta febre dos fenos” (O Camponês do Garona, tradução portuguesa de J. de Castelo Branco, ed. União Gráfica, Lisboa, s.d., p. 15).
[5] Romano Amerio, op. cit., § 251.
[6] Noticiou-se que, acerca da tese principal do documento O Povo Judeu e as Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã, redigido pela Comissão Bíblica Pontifical, tese que sustenta não ser vã a espera do Messias pelos judeus,  teria o então porta-voz do Vaticano, Navarro Vals, afirmado: “Isso quer dizer que seria mal para um católico esperar o Messias, mas para um judeu, não”. De modo que estaríamos diante de uma verdade e, conseqüentemente, de um bem que podem ser uma falsidade e, conseguintemente, um mal, conforme varie o sujeito cognoscente. E dizer que essa verdade (ou falsidade) é a encarnação de Jesus Cristo.
[7] Não parece demasiado acrescentar que até mesmo em atuais supostas revelações particulares — cuja sobrenaturalidade não se acha afirmada pela Igreja — há indícios dessa propensão ao indiferentismo religioso.  Exemplo expressivo é o da suposta aparição de Medjugorge, a que se atribuem afirmações como estas duas seguintes: “Deus dirige todas as confissões religiosas como um rei a seus súditos”; “Todas as religiões são iguais diante de Deus”. Extrai-se de uma declaração de Dom Despierre, bispo de Carcassone: “Si un catholique devient musulman ou inversement, je n’y vois aucun problème” (in DICI n. 46, 15-3-2002) [“Se um católico se torna muçulmano ou vice-versa, não vejo qualquer problema”].